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A Escola do Porto Santo lava a cara

Coordenador do Sindicato dos Professores da Madeira

Na prática, haverá cimento novo sobre estruturas velhas, tintas novas que esconderão o ferro mais do que oxidado dos pilares e das vigas antigos. Em junho de 2019 (data apontada para a conclusão das obras), todos veremos uma escola bonitinha a cheirar a fresco. No entanto, o tempo encarregar-se-á de recordar que se tratou de um remedeio e não de uma verdadeira solução; a ferrugem escondida voltará a surgir à vista de todos e a recordar por muitos anos este erro.

Há mais de três décadas que a Escola Básica e Secundária do Porto Santo vem funcionando num edifício precário. Logo é mais do que natural que a população porto-santense há muito reclame a construção de uma nova escola, que reponha o direito dos cidadãos da ilha aprenderem num espaço digno, como acontece em quase todo o território regional. Na verdade, não se compreende como houve tanto investimento em escolas que agora estão a ser extintas ou fundidas, quando a única dos 2.º, 3.º ciclos e secundário do Porto Santo foi sucessivamente esquecida.

Dir-me-ão alguns otimistas que esse é um problema em vias de ser ultrapassado, já que estão em curso, desde o dia 8 de janeiro, obras para a reparação dessa injustiça. Bem gostaria de acreditar, mas, infelizmente, as sucessivas alterações dos projetos apresentados à população mostra claramente que, uma vez mais, este problema estrutural não está a ser resolvido, mas a ser remediado. Isso é bem visível na evolução terminológica das referências às obras desta escola: passou-se da construção de uma nova escola para a “requalificação” da atual ou para “uma profunda remodelação” onde “apenas ficarão de pé as fachadas originais”. Tudo forma de se tentar iludir os cidadãos e dar a entender que o Porto Santo terá uma nova escola, o que não é verdade. Na prática, haverá cimento novo sobre estruturas velhas, tintas novas que esconderão o ferro mais do que oxidado dos pilares e das vigas antigos. Em junho de 2019 (data apontada para a conclusão das obras), todos veremos uma escola bonitinha a cheirar a fresco. No entanto, o tempo encarregar-se-á de recordar que se tratou de um remedeio e não de uma verdadeira solução; a ferrugem escondida voltará a surgir à vista de todos e a recordar por muitos anos este erro.

Que não fiquem dúvidas, o que se está a fazer é uma obra de cara lavada. Basta subir a rua para o Bairro dos Professores e observar com alguma atenção as obras no velho polivalente: as colunas descarnadas deixam à vista o ferro oxidado, que será coberto por novo cimento; por sua vez, as vigas antigas da cobertura foram agora reforçadas com barras metálicas, mas continuarão lá a desempenhar a sua função de sempre: suportar a cobertura. Quanto ao resto, é também isso que se pode observar: a estrutura antiga mantém-se inalterada, apenas se retirou das paredes o cimento rejeitado pelo esqueleto metálico enferrujado.

Evidentemente que é melhor esta obra de cara lavada do que deixar tudo como estava, pois melhorará a segurança ameaçadora do velho edifício e as condições de conforto de toda a comunidade escolar. Porém, para além disso, pouco mais trará de novo. Certamente, mais um ou outro gabinete, mas pouco mais. Porque se esqueceram espaços fundamentais para uma escola moderna, como um auditório ou uma biblioteca de raiz?

Pior ainda, bem podem dizer que a remoção das placas de fibrocimento foi feita “por uma equipa especializada” e que “foram respeitadas todas as normas de segurança”, pois sabemos que não foi assim. A verdade é que foi dada uma formação ad hoc aos trabalhadores, que nunca tinham lidado com estes materiais, e mandaram-nos fazer o trabalho sujo. Tudo feito de forma atabalhoada, como se pode ainda constatar pelos muitos materiais de isolamento (faixas bifaces de alumínio e alcatrão, por exemplo) que estavam colados às placas e que, depois de arrancados, foram abandonados no local sem qualquer cuidado especial. Com certeza que o vento fez (e continua a fazer) o que lhe competia: espalhar as micropartículas libertadas do fibrocimento por toda a ilha.

Exigia-se mais cuidado de todos os responsáveis e mais respeito pela população do Porto Santo, mas, infelizmente, o pressuposto nunca foi resolver, mas iludir a população!

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