home Notícias, PROF#ficaemcasa Anabela Machado

Anabela Machado

Tenho dias que acordo perdida no tempo, às vezes não sei bem o dia do mês e até o dia de semana em que me encontro. Sem dúvida que as nossas vidas mudaram drasticamente.

Onde quer que estejamos, o silêncio invadiu-nos tornando-se quase perturbador. As cidades estão vazias, o imenso mar azul está bem ali à nossa frente, mas não podemos
desfrutar dele. Não há mais turistas a vaguear pelas ruas do Funchal, nem navios de cruzeiro no porto, não há espetáculos culturais, nem cinemas, nem cafés, nem convívios sociais entre amigos e até familiares, o trânsito
diminuiu a olhos vistos, os transportes públicos vão deambulando praticamente vazios. Não se ouve mais o barulho das crianças e jovens à saída e entrada das suas escolas …

A palavra de ordem passou a ser “FIQUE EM CASA”. Sair de casa tornou-se para nós uma constante ameaça, uma ameaça invisível mas que pode ser mortífera, pelo que, em muito pouco, tempo, todos nos vimos obrigados a
reinventar-nos.

Sou Educadora de Infância, com muito orgulho, e confesso-vos, sinto falta
de tantas coisas, mas sinto sobretudo falta daqueles abraços sentidos e sinceros dos meus “meninos”, de os ouvir às vezes sussurrar-me ao ouvido “gosto de ti”, “és linda”! De dançar, meditar, pintar, desenhar, inventar jogos com eles, vermos todos juntos o eclodir de mais uma borboleta que se manteve no seu casulo por algum tempo. É primavera e não podemos ver juntas as flores crescerem, os bichinhos de conta rastejar muito devagarinho no recreio da escola, o chilrear dos passarinhos, o cheiro da
relva cortada, até mesmo o barulho de um berbequim incómodo numa obra algures nas imediações da escola.

É isso, começo mesmo a ter saudades da minha rotina, porque mesmo que arranjemos estratégias para continuar em contacto com as nossas crianças, de forma virtual, não há nada como dar vazão aos nossos sentimentos, às nossas emoções, que começam já a ressentir-se fruto deste isolamento social a que nos vemos obrigados.

Hoje, todos tivemos mesmo e forçosamente que nos reinventar, que aprender novas metodologias e dominar infalivelmente as tecnologias que nos aproximam de quem está longe. E até chegamos à conclusão que sabemos muito mais do que aquilo que supúnhamos saber, ou então, como diz o ditado “A necessidade assim o obriga!”
São muitos os pais e encarregados de educação que têm que ficar com os
seus filhos em casa, não é fácil, pois muitos deles têm de continuar a trabalhar mesmo que em teletrabalho, para além disso, têm também que gerir as necessidades emocionais e escolares dos seus educandos. Não é fácil para ninguém, acreditem.
Por sua vez os professores estão agora com maior sobrecarga no seu trabalho do que quando se encontravam na escola, pois têm que arranjar estratégias para se manter em contacto quer com pais, quer com os seus
alunos. O stresse toma, nestes dias, conta de todos, (pais/encarregados de educação, alunos e professores). Para a maioria de todos dos alunos, está a ser muito doloroso ter que responder a tantas solicitações de trabalhos
escolares.

E agora eu pergunto-me. E aqueles que não têm nas suas casas acesso a estas tecnologias? Que não têm “tablet”, computador, nem “smartfhones”, ligação ao wifi, entre outros tipos de instrumentos. E o
tempo que estas crianças/jovens passam em frente de ecrãs? – Aspeto tão refutado por psicólogos e entendidos na matéria. Pois, é um pouco ambíguo, pois mesmo sabendo que o mundo não pode parar, deparamo-nos com muitos paradigmas.

Mas, certos de que todos esperamos o melhor e que, neste momento difícil pelo qual estamos a passar, só nos resta aguardar e ter esperança que todos possamos aprender muitas coisas, que nos reinventemos de
forma mais adequada dentro dos valores e atitudes cívicas que nós, professores e educadores, tentamos sempre passar aos nossos alunos.
Que aprendamos a ser mais solidários, mais compreensivos, mais amigos, porque a vida pode ser tão efémera.

De lamentar são as perdas de muitas vidas que já pudemos testemunhar, a mendicidade, a o aumento da violência doméstica, o desemprego que sobe assustadoramente, isto sim, é muito dramático.

Que esta pandemia seja passageira e que, finalmente, nos possamos voltar a abraçar e a socializar, como sempre fizemos, e que os estragos feitos possam ser reparados o quanto antes.

Cuidem-se e cuidem dos outros também

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