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AS MENINAS DO LICEU ( anos 60/70)

Éramos assim…

Pequenos bandos de pombas brancas
Arrulhando nos pátios tranquilos
à sombra de buganvílias escarlates
Risos tímidos, gargalhadas, canções da moda
A canção proibida “ Je t’aime moi non plus”
ouvida às escondidas, tinha outro sabor…

Livros de autógrafos e fotonovelas passavam de mão em mão
E eram mais populares que o manual de Matemática
e que os exames escritos e orais do segundo, quinto e sétimo anos
Ainda oiço o retinir dos berlindes a bater no chão do pátio
De onde nos debruçávamos para ver os rapazes
Que nos atiravam tangerinas roubadas no laranjal do Liceu

Éramos assim..

Meninas caloiras de tranças, recém chegadas, fazendo vénias forçadas
subjugadas, humilhadas pelas doutoras do segundo ano…
E éramos conhecidas pelo número! Número 20, vem ao quadro!
Custou-me muito ser chamada por um número…
Depois, já mais confiantes, à saída das aulas
pelos corrimãos polidos das escadas
deslizávamos como flores brancas, sorridentes
em descidas vertiginosas, perigosas
Menina, suba e desça como deve ser! disse-me uma vez o Sr. Reitor
Trim…Outra aula começava, toda a turma levantada!
Bom dia Sr. Doutor! Gritávamos em uníssono

Éramos assim…

Bando de pombas domesticadas, aprumadas
Papagueávamos Je suis, tu es, il est…
Observando os lábios pintados de vermelho da D. Eulália, a “foca”
E viajávamos por Paris, sem nunca lá por os pés
Subiamos à torre Eiffel, navegávamos no Sena, subíamos ao Sacré Coeur…
Nas aulas de português ouvi a Menina do mar e a fada Oriana e aprendi poesia
Nas aulas de religião víamos filmes do Charlot com o padre Angelino
e na de lavores aprendíamos bordados e tricot
Ai, o toucado louro da D. Vera! Obra de arte inesquecível !
Chegávamos ao Liceu com a bata branca
dobrada, debaixo da capa de cabedal castanho
Vestida à pressa, à porta, pernas tapadas, até o joelho

Éramos assim…

E assim fomos crescendo e aprendendo a escola e a vida
Mestres inesquecíveis no melhor e no pior
Uns deixando saudades, outros más recordações
Perdendo e passando, lá chegávamos ao fim
Meninas do Liceu, quase senhoras
Já finalistas, quase doutoras
Andorinhas negras de asas esvoaçantes
Procurando novas rotas, outros destinos
Na ilha mãe, a maioria ficando
Outras, poucas, voando mais longe, para além do mar..

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