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Nada surge do nada

Vale a pena lutar, sobretudo quando não temos dúvidas da justiça das nossas reivindicações

Vem isto a propósito das reflexões que me provocou a série de notícias recentemente divulgadas, quer em órgãos da comunicação social regional, quer nacional. De entre muitas mais, destaco

  • os valores preocupantes do desemprego na Madeira, mas também a nível nacional, sobretudo do desemprego jovem;
  • as medidas que o Governo está a tomar para impedir as reformas antecipadas antes dos 60 anos e os valor médio ridículo (176 €) para quem atualmente se pretende aposentar aos 55 anos;
  • o relatório da OCDE sobre os dados da qualidade do trabalho em Portugal (“Portugal faz parte do terço de países da OCDE onde mais trabalhadores vivem condições de desgaste”);
  • a reportagem da revista Visão do passado dia 11 intitulada “Como os ricos escapam ao fisco”, que mostra que as famílias mais ricas em Portugal só contribuíram com 0,37% das receitas do IRS e onde se conclui que o “enorme aumento de impostos” recaiu sobre os portugueses da classe média, porque atacou os rendimentos do trabalho e não os rendimentos dos capitais.

A juntar a tudo isto, houve, ainda,
• a crónica translúcida de José Soeiro, no Expresso Diário do passado dia 12, apropriadamente intitulada “A máfia laboral”, denunciando a exploração dos jovens que têm de pagar para obterem trabalhos que não lhes garantem a subsistência; ora, esta mentalidade da “precariedade como regra” provoca a desvalorização e a instabilidade de toda a cadeia laboral.

Julgo que ninguém poderá ficar indiferente a dados e factos tão eloquentes, a não ser que faça da máxima “Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto” (Génesis 3, 19) verdade absoluta e condição indispensável para alcançar o paraíso num outro mundo, aceitando o inferno deste. Na verdade, é difícil percebermos a resignação em que vivem tantos trabalhadores portugueses e a sua docilidade perante os exploradores. Mais difícil, ainda, é aceitar que trabalhadores que reconhecem a sua condição de explorados julguem que não vale a pena lutar pelos seus direitos inalienáveis.

É o que tenho constatado, por vezes, nos encontros com alguns colegas professores quando apresentamos as propostas do Sindicato de Professores da Madeira e da federação nacional em que se integra, a FENPROF, sobre um regime de aposentação mais digno e justo, sobre os descongelamentos dos salários e pensões ou sobre as condições de trabalho: reconhecem que são justas, mas que o Governo nunca as aceitará, o que prova que o argumento financeiro propalado pelos vários governos e impingido pela Troika caiu em terreno fértil.

Contudo, não tenhamos dúvidas, não há realidades imutáveis, como o provam grandes lutas históricas (por exemplo, contra a escravatura, pela defesa da igualdade racial, ou, ainda, em defesa do voto das mulheres). Vale a pena lutar, sobretudo quando não temos dúvidas da justiça das nossas reivindicações e quando sabemos que há soluções para os problemas. Sim, não nos deixemos enganar: há riqueza suficiente no mundo e em Portugal para todos vivermos bem, o que está é mal distribuída e a maioria trabalha em benefício de poucos. Há riqueza suficiente para que os mais velhos descansem, libertando-se, assim, trabalho para os mais novos se realizarem profissionalmente.

Façamos, pois, do atual regime geral de aposentação excecional (só para quem considerar o trabalho a razão de viver) e exijamos um regime geral que permita o descanso numa fase em que as nossas faculdades ainda não nos traiam. Um dia será assim, porém é necessário que cada um faça a sua parte. O SPM está a fazer a sua, porque nada surge do nada.

Diário de Notícias da Madeira, 17.2.2016

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/569053-nada-surge-do-nada

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