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Não há notícias inocentes

Coordenador do Sindicato dos Professores da Madeira

A data em que se deveria valorizar os professores serviu para denegrir a sua imagem

Celebramos, recentemente, o dia 5 de Outubro, Dia da Implantação da República, ou melhor, deveríamos ter celebrado esta data memorável para Portugal, mas, infelizmente, os mais altos representantes da República Portuguesa resolveram esquecê-la, o que só por si revela a inconsciência e ingratidão de quem nos governa. Governante que não reconhece a importância desta efeméride está em contradição com as suas funções e, obviamente, consigo próprio. 
No entanto, o 5 de Outubro tem também uma dimensão mundial, pois foi declarado, em 1994, pela Unesco, Dia Mundial do Professor. Porém, também aqui as celebrações não tiveram a dimensão que deveriam ter tido, pelo menos entre nós. Pior ainda, a nível nacional, o destaque do dia foi para a divulgação do relatório Eurydice, observatório europeu para a educação, aproveitando-se para se passar, uma vez mais, a ideia de que os professores são uma classe privilegiada que ganha muito mais do que a grande maioria dos seus concidadãos e de que, no panorama europeu, os docentes portugueses são dos mais bem pagos. Assim, a data em que se deveria valorizar os professores serviu para denegrir a sua imagem. Mais, a chegada do Dia do Professor foi sendo preparada pela comunicação social da RAM, certamente com a conivência de outras entidades, com algumas notícias concertadas que visavam o bom nome de todos os docentes. Na verdade, olhando-se para a 1ª página do dia 24 de setembro deste matutino e para a notícia da página 4, “90 professores de atestado em 3 dias”, para a rábula “Doenças raras” da revista do dia 27 e para o cartoon do passado dia 4 do mesmo diário, será difícil não concluirmos que houve intenção de se atingir a dignidade dos professores e educadores da RAM. Contudo, a este propósito, reafirmo o que o SPM já disse: 1º a grande maioria dos docentes é inatacável; 2º em caso de suspeita de fraude, investigue-se e não se lance suspeitas sobre todos.

Quanto ao relatório Eurydice, convém desmontarmos as falácias em que caíram os seus responsáveis. Muito haveria a dizer, mas tentemos simplificar com alguns factos indesmentíveis:

O relatório foi feito com os dados fornecidos pelo Governo, não considerando os cortes salariais aplicados desde 2011 e os congelamentos das progressões desde há vários anos, ou seja, o Governo, certamente intencionalmente, fez de conta que a austeridade não passou pelos docentes, quando se sabe que foram dos profissionais mais atingidos.

  • Os valores apresentados como salários reais dos professores e educadores são uma miragem, porque ilíquidos, sendo, pois, necessário descontarmos a “brutal carga de impostos”, uma das mais pesadas da Europa; assim, um professor em início de carreira não recebe mais do que cerca de 900 €, um professor com 25 anos de carreira recebe pouco mais de 1300 € (contando já com o subsídio de refeição e os duodécimos do subsídio de Natal).
  • Considera-se que os docentes demoram 34 anos a atingir o topo da carreira, quando se sabe que, com os entraves que foram criados ao longo dos últimos anos, a grande maioria nunca passará dos escalões intermédios
  • Não há professores no topo da carreira, porque o governo vetou essa possibilidade há alguns anos.
  • As comparações do relatório deveriam ser feitas pelo poder de compra, indicador real e concreto, e não pelo PIB, muito mais genérico e irrealista.

Apesar destes ataques deliberados, os docentes continuarão a ser os pilares da boa qualidade da nossa educação, disfarçando, com o seu profissionalismo, dedicação e paixão, o miserabilismo a que é votada pelos governantes.

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