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Alunos portugueses no topo da indisciplina

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É demonstrado, cientificamente, por estudo da OCDE: alunos portugueses entre os mais indisciplinados, o que faz com que haja mais tempo perdido em Portugal a gerir a indisciplina nas aulas.

As conclusões da OCDE, que teve honras de manchete na 1.ª página do jornal Público no dia 5 de abril de 2016, não só dizem que a indisciplina é um problema em Portugal, como é um problema maior do que em muitos outros países. Vamos inclusive no sentido da sul-americanização do problema, no mau sentido, já que o Brasil, Chile e México lideram as listas entre os piores, e distanciamo-nos da Europa e da média da OCDE (ver imagem reproduzida neste artigo).

 

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Tabu impede tomada de medidas

Os professores portugueses sabem bem da gravidade do problema, sentem-no na pele todos os dias. Contudo, por a indisciplina em sala de aula ser um assunto ainda relativamente tabu, e tudo estar formatado para tapar ou ignorar o problema, com discursos redondos, os docentes, apesar de serem tantos no país, não têm conseguido quebrar esse verniz. «Os professores são deixados sozinhos e sem meios sobre a indisciplina crescente» afirmou Daniel Sampaio (revista Pública 4.1.2009).

O risco é evidente: «se não valorizarmos o pequeno incidente de indisciplina, se não respondermos de imediato com medidas correctivas de responsabilização, a desordem cresce dia após dia. Sabe-se que a degradação do clima na escola progride por estádios, desde a recusa de regras na turma e pouco trabalho, até atos graves de delinquência (agressão a professores, destruição de material escolar), com etapas intermédias de pequenos delitos, comportamentos provocatórios e desafios à autoridade que denunciam uma violência latente.»

Desviou-se a questão para as características de personalidade, psicológicas e profissionais do professor, em lugar de o problema da indisciplina ser assumido como um problema da escola e da sociedade e, assim, se criarem instrumentos claros, precisos e justos, de regulação. Para os que não sabem, tenham oportunidade de aprender a portar-se em público e perceber o valor, desde logo para si mesmos, do empenho, do esforço, da vontade própria e da autodisciplina. A gestão da indisciplina na aula não pode depender apenas do perfil do professor: tem a ver com um contexto alargado e um conjunto de variáveis que ele não controla. A principal função do professor é mediar a aprendizagem dos alunos (ensinar) e nunca deveria ser secundarizada devido a situações disruptivas constantes em sala de aula.

Como ainda há muitos que negam ou relativizam o problema, isto é, colocam “paninhos quentes” (postura desculpabilizante e complacente) na tentativa de tapar o problema, significa que não são tomadas as respetivas medidas para resolver a indisciplina na escola. Seja ela de baixa ou alta intensidade, mina o ambiente escolar e obstaculiza o processo de ensino-aprendizagem nas salas de aula, com impacte nos resultados escolares.

Recorde-se que um antigo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, em entrevista dada à Visão (22.11.2007), denunciou que estava a ser relativizada a violência escolar ao mais alto nível: «Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe. Vou-me preocupar com cada caso de um miúdo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro. Não quero nem que haja um sentimento de impunidade nem que esse miúdo se torne um ídolo para os colegas.»

A negação, o branqueamento, a demissão e a inação de muitos face ao problema do ambiente na sala de aula tem provocado prejuízos à sociedade, para além dos prejuízos pessoais aos professores, tanto na saúde como na realização profissional. A falta de condições de trabalho na sala de aula é uma forma de humilhação e um atentado à dignidade humana e profissional dos docentes.

 

Mas já não há como negar

Todavia, por ser um problema tão grave, saltar para a 1.ª página dos jornais e ficar provado por estudos científicos, a negação da realidade tem vindo a tornar-se mais difícil e começa a ser assumida em alguns setores em alta voz, neste caso pelas associações de diretores de escolas e de pais. Atente-se a algumas passagens de um artigo recente do Diário de Notícias de 15 de março de 2016:

«A indisciplina “é o maior problema das escolas“. A classificação é feita por Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), que todos os dias vê alunos insultar colegas ou usar o telemóvel na sala de aula sem autorização.»

«Nas escolas são comuns os casos de alunos que perturbam as aulas, insultam os professores ou os colegas e funcionários, aponta Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP)».

«Do lado dos pais, a redução do número de alunos por turma “não pode ser uma medida isolada”. “É preciso muito mais do que isso para travar a indisciplina”, aponta Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap).»

Já em 22 de setembro de 2008 o Diário de Notícias da Madeira dizia que a «indisciplina continua a gerar cada vez mais queixas» e que «estão a crescer os casos de insultos e ameaças nos estabelecimentos de ensino da Região».

A escritora Alice Vieira, que anda no terreno, escreveu no Jornal de Notícias (9.12.2007), o artigo intitulado Violência nas escolas: «Falo de uma violência muito mais perigosa porque mais subtil, mais pela calada, mais insidiosa. Uma violência mais “normal”. E não há nada pior do que a normalização, do que a banalização da violência. Violência é não saberem viver em comunidade, é o safanão, o pontapé e a bofetada como resposta habitual, o palavrão (dos pesados…) como linguagem única, a ameaça constante, o nenhum interesse pelo que se passa dentro da sala, a provocação gratuita (“bata-me, vá lá, não me diga que não é capaz de me bater? Ai que medinho que eu tenho de si…”, isto ouvi eu de um aluno quando a pobre da professora apenas lhe perguntou por que tinha chegado tarde…). Violência é a demissão dos pais do seu papel de educadores – e depois queixam-se nas reuniões de que “os professores não ensinam nada”.» Os alunos «não têm regras, não conhecem limites, simples palavras como “obrigada”, “desculpe”, “se faz favor” são-lhes mais estranhas do que um discurso em Chinês – e há quem chame a isto liberdade.»

 

Problema cultural

A investigadora Margarida Pocinho, no JM de 4 de abril de 2016, questionou se «não seria de explorar a possibilidade de estarmos perante um problema cultural de fundo dos portugueses em relação à valorização da aprendizagem e à necessidade do estudo?»

É uma pergunta de retórica, porque é evidente a resposta. Um estudo recente no país dá conta da baixa importância social da educação em Portugal («52% considerou que se atribui hoje demasiada importância à educação e à escola»), que é um substrato que condiciona a postura (autodeterminada) e a prestação escolares das novas gerações. Quem desvaloriza a educação, desvaloriza os professores e desvaloriza os valores centrais do trabalho, da disciplina e da responsabilidade pessoais dos alunos na escola e na vida.

Por sua vez, quem é negligente quanto à importância do ambiente escolar, para desenvolver o trabalho de ensino e de aprendizagem, não valoriza esse trabalho escolar, nem a concentração, o empenho e esforço que é preciso colocar nele. Seja qual for a escola, a época ou modelo de ensino dessa escola, estes valores são basilares e incontornáveis.

Atente-se à realidade transmitida pelas notícias: «Os alunos portugueses na Suíça obtêm os resultados escolares mais baixos entre as comunidades estrangeiras» (Revista Mais – Diário de Notícias da Madeira 4.11.2007); «A comunidade portuguesa no Canadá é uma das comunidades étnicas com maiores taxas de abandono e subescolarização» (Diário de Notícias da Madeira 23.8.2007); «Entre as minorias étnicas, as crianças de origem portuguesa são aquelas que têm os piores resultados escolares», na Inglaterra, área de Londres (Diário de Notícias da Madeira 2.2.2005).

Antes, a Grande Reportagem (01.01.2005) escreveu o seguinte, a respeito dos bons resultados dos alunos de países do Leste europeu, nas escolas portuguesas: «Afinal, não há nenhum problema com o tão vilipendiado sistema de ensino em Portugal, já que é possível obter níveis de aproveitamento escolar bastante exigentes (…). Concluímos assim que a grande deficiência da educação em Portugal não se situa afinal ao nível dos padrões e dos métodos de ensino, mas é sim de natureza social. Por alguma razão que falta descortinar, os jovens portugueses não encontram no seu ambiente natural (familiar, social, etc.) nem os mecanismos de treino e amadurecimento do raciocínio nem os estímulos que os levem a aplicar-se disciplinadamente nos estudos, ao contrário do que acontece com os alunos originários do Leste.»

N’O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), Eduardo Lourenço fala de «uma das menos repressivas educações infantis que existem», com «adulação permanente e espectacular da criança-rei (sobretudo o macho), porta aberta para a suas pulsões narcisistas e exibicionistas, ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si, tais são os mais comuns reflexos da educação portuguesa».

O maior pensador português vivo continua a sua análise: «A contrapartida desta “realeza”» de «cada adolescente (macho)» «traduz-se numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta, e dá origem a uma sociedade que, sem paradoxo algum, suscita e impõe uma “violência estatal” que, exteriormente, equilibra essa fictícia realeza individual.» E conclui: «Nada há na educação portuguesa – sobretudo hoje que a também «exterior» mas efectiva pressão ética de ordem religiosa naufragou – que contribua para a existência de um comportamento tanto quanto possível autodeterminado.»

 

Disciplina pessoal e trabalho, o segredo do sucesso

Como se pode negar às novas gerações a importância da disciplina pessoal, autocontrolo e força de vontade, não só para o sucesso e realização nas suas vidas, como também para a sua liberdade (não ser escravo dos impulsos mais fracos e primários)? Aqueles elementos conferem força interior, coragem e caráter para perseverar, evoluir e vencer as dificuldades.

A disciplina, a vontade e o trabalho individuais são fatores nucleares para o sucesso escolar. Com trabalho e disciplina, as desvantagens socioculturais que carregam alguns alunos podem ser muito esbatidas e mesmo superadas. Agora, quando existe uma cultura de laxismo, de indisciplina e ausência de empenho, não há pedagogia ou modelo de escola que faça milagres. O caminho do facilitismo não é opção porque o mundo não é assim.

«A escola é um lugar de esforço», afirmou José Pacheco, mentor da Escola da Ponte, na Vila das Aves, quando esteve numa conferência na Calheta, no auditório do Centro de Artes, em Janeiro de 2007. «Os alunos da Ponte trabalham que se fartam», reforçou.

António Teodoro, especialista em Ciências da Educação e ex-sindicalista da Fenprof, sublinhava, recentemente, que «quanto mais democrática é a escola, maior deve ser a exigência» (Diário de Notícias de 22.2.2016). Incluindo, como é óbvio, a exigência ao nível da autodisciplina, vontade e empenho de cada indivíduo, porque em democracia não são (não devem ser) valores impostos. Valores que evita, precisamente, cair-se no facilitismo e na permissividade bloqueadoras da aprendizagem e possibilitar, de forma efetiva e real, a todos os alunos, «aceder à beleza do conhecimento que foi construído na filosofia, na matemática, na grande música.»

Na sociedade atual, na chamada sociedade do conhecimento, o «pior que podemos fazer às crianças, sobretudo às crianças dos meios mais pobres, é deixá-las sair da escola sem uma verdadeira aprendizagem», salienta António Nóvoa (Professores, imagens do futuro presente: 2009).

Isabel Pires de Lima, professora universitária e ex-ministra da Cultura do XVII Governo Constitucional, afirmou à Página da Educação (n.º 194 Outono 2011) que «é muito importante uma maior co-responsabilização dos pais e dos educadores, porque há claramente uma demissão dos pais na educação dos filhos, passando essa responsabilidade mais e mais para a Escola, pedindo-lhe tudo o que porventura pode dar e o que não pode; e essa responsabilização dos pais deve levar a uma maior exigência de trabalho por parte dos filhos. Há, claramente, uma espécie de infantilização dos estudantes, atribuindo toda a responsabilidade do processo de ensino e aprendizagem aos professores, e eu acho que deve haver responsabilidade por parte dos estudantes. É preciso introduzir uma cultura de trabalho nas escolas. Outro aspecto é a necessidade de fomentar uma cultura cívica, também de forma interdisciplinar.» E refere: «Preocupa-me que os jovens não tenham a percepção de que têm acesso ao que apenas um sector muito diminuto e privilegiado da humanidade tem [o acesso à Escola].»

Os valores do trabalho, da vontade/esforço e da disciplina/responsabilidade de cada indivíduo são a base ou tronco comum de qualquer modelo de escola, em qualquer época ou sociedade, para proporcionar aprendizagens significativas. E tais valores são fatores fundamentais de inclusão, democratização do ensino, garante de igualdade de oportunidades, sucesso pessoal, preparação para a vida e mobilidade social.

 

Menos alunos por turma não ataca as causas

Tem-se falado muito, ultimamente, face a algumas iniciativas políticas, na diminuição dos alunos por turma. Tem vários efeitos benéficos na condução do trabalho de ensino e de aprendizagem, mas é preciso atuar também e de forma resoluta sobre o fenómeno da indisciplina, seja de alta ou baixa intensidade, que é determinante para o ambiente na sala de aula e o sucesso escolar dos estudantes. Mexer no número de alunos por turma não mexe na causa da indisciplina. O ganho é lateral e quantitativo: significa menos indisciplinados por sala de aula mas haverá indisciplinados mesmo em turmas mais pequenas.

Vejamos, a este propósito, esta passagem da notícia do Público já citada (Alexandre Henriques é docente do ensino secundário e autor do blogue Com Regras, de «análise e debate sobre indisciplina e educação em geral»), que alerta para o facto de que a redução do número de alunos por turma não ser uma solução milagrosa e que exige outras medidas, para garantir algo básico e fundamental – a qualidade das condições de trabalho para alunos e professores:

 

com regras

 

Como não há medidas, os professores é que sofrem

Há estudos científicos em Portugal que demonstram que temos 30% dos professores em burnout e mais 20 a 25% com ansiedade e depressão (ver ainda estudo científico publicado na Acta Médica Portuguesa, a revista científica da Ordem dos Médicos, que foi divulgado no PROF #92, página 13).

Algo que se deve em grande parte à indisciplina estudantil em sala de aula, no topo das difíceis condições laborais que fazem disparar o stresse na profissão. Tudo agravado pela grande dispersão de funções, burocratização e pressão para o professor cumprir programas demasiado extensos e atingir exigentes metas de sucesso escolar e educativo dos alunos. Isto sem controlar muitas das variáveis, em contextos socio-culturais desfavoráveis ao conhecimento e ao trabalho de aprendizagem e em maus ambientes escolares, que criam obstáculos constantes ao decurso das aulas e à ação pedagógica do docente.

Marcelino Mota, numa conferência promovida pela Fenprof sobre o stresse na profissão docente, no edifício da Assembleia da República em 2 de fevereiro de 2016, sintetizou assim:

“Integrada no grupo das profissões de stresse, a profissão de professor, particularmente a associada ao ensino básico, em todos os ciclos, e ao ensino secundário, é penalizada por: 1. Sofrer de elevada intensidade e frequência de estímulos stressores; 2. Enfrentar difíceis condições laborais, sentir falta de reconhecimento ou até desvalorização do seu trabalho e ter excesso de carga horária; 3. Viver uma elevada responsabilidade para com terceiros; 4. Experienciar poucas consequências positivas na atividade, que façam reverter os efeitos dos agentes fisiológicos do stresse (quando existem são em diferido); 5. Por a sua atividade oferecer um défice de consequências sociais positivas às reações de stresse.”

E concluiu: “Fica mais ou menos claro que os professores só não fazem o pleno dos fatores que provocam stresse porque, por enquanto, não parecem correr riscos de morte”.

Ao Jornal de Notícias, este especialista da psicologia referiu que as principais causas do absentismo dos professores são, em particular no ensino secundário, “morbilidades psicológicas provocadas por fatores como a elevada carga horária, indisciplina, desmotivação e desrespeito dos alunos (muitas vezes com alheamento dos pais) ou a falta de apoio para lidar com estes fenómenos.”

 

Atacar os sintomas e, aos poucos, as causas

Não é justo que os docentes tenham de perder a sua saúde e a sua dignidade humana e profissional a trabalhar em prol do crescimento e desenvolvimento das crianças, jovens e do futuro da sociedade. Não é justo que ao dar tanto, percam tanto.

É preciso atuar, simultaneamente, nas causas, a montante, e nos sintomas no presente, a juzante, de forma a limitar a indisciplina na sala de aula e proteger os professores, o processo de ensino e de aprendizagem e o sucesso escolar. Não é preciso mexer em todas as causas do problema de uma só vez, mas é necessário começar por uma ponta.

Isto para termos uma escola que contribua para formar as pessoas (capazes de se portar em público e ter autodisciplina) e que seja menos humilhadora, agressora e amordaçante, que esmaga a alma e o sentimento, dos que nela precisam de trabalhar, não só para sobreviver mas também, e acima de tudo, para realizar-se através do exercício da profissão docente, um serviço de dedicação aos outros./NS

post scriptum:

«A Educação precisa de atenção, para que não tenhamos crianças e jovens tão mal comportados rebentando com o juízo de professores e pais» (Padre José Luís Rodrigues, Diário de Notícias 15.5.2016).


99% dos despedimentos por má atitude e comportamento

Fenprof exige medidas contra a indisciplina

Queixas de indisciplina são quase diárias (JM 17.4.2016)

4_indisciplina portugalPúblico5Abril2016_2Público 5.4.2016 (1.ª página e página 12)

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