home Ação reivindicativa, Notícias 99% dos despedimentos por má atitude e comportamento

99% dos despedimentos por má atitude e comportamento

As questões comportamentais estão no centro dos critérios de contratação das empresas e de manutenção do emprego por parte do trabalhador. Jaime Morais Sarmento, diretor de Recursos Humanos do Grupo Pestana, o maior grupo hoteleiro português e já entre os maiores da Europa, no final da sua intervenção, na primeira das Novas Conferências do Casino, no dia 16 de abril, afirmou o seguinte: «99% dos despedimentos são por questões comportamentais e de atitude.»

E sublinhou: «tenho de recrutar [trabalhadores] pelos comportamentos, que vão fazer a diferença», não apenas ou sobretudo pelas competências técnicas. O perfil humano («como é a pessoa e o seu comportamento») é o que Jaime Morais Sarmento valoriza e prioriza na contratação da referida empresa. Algo que «não está no curriculum vitae, mas que «vem de nascença», isto é, da educação familiar.

Algo importante que foi dito perante uma plateia de responsáveis do setor da Educação na Região Autónoma da Madeira, professores, estudantes e outros participantes da sociedade. Por um lado, por ser um dado a cruzar com o facto de os alunos portugueses estarem no topo da indisciplina ao nível da OCDE e, por outro lado, a sociedade delegar na escola maiores responsabilidades de educação pessoal e cívica, além da sua tarefa essencial e prioritária que é ensinar.

Ora, isto obriga a maior atenção e medidas, preventivas e reguladoras, na educação pessoal e humana nas escolas. De modo que os estudantes não comprometam o seu futuro profissional por causa de atitudes e comportamentos geradores de exclusão. De forma que se altere ainda esta realidade que mostram os estudos científicos em Portugal: 30% dos professores em burnout e mais 20 a 25% com ansiedade e depressão.

Outra conclusão decorrente do dado avançado pelo diretor de Recursos Humanos do Grupo Pestana, a partir da realidade bem concreta do mundo do trabalho, prende-se com o facto de que as competências técnicas e do currículo estarem a ser sobrevalorizadas relativamente ao perfil humano e atitudes das pessoas: como membros da sociedade ou como trabalhadores.

Já antes, a presidente da Associação de Pais da Escola Jaime Moniz, Vanda Jesus, havia deixado o alerta para a Educação «muito centrada na notas», nos conhecimentos, nas competências, e que «secundariza a formação emocional, cívica e ética da pessoa e do cidadão.» Algo que entra em harmonia com as declarações do diretor de Recursos Humanos do Grupo Pestana.

Com os atuais níveis de indisciplina, violência e bullying nas escolas portuguesas (ver ainda manchete do JM em 17.4.2016: «queixas de indisciplina são quase diárias»), que inclui as madeirenses, é claro, significa que não se está a preparar as pessoas para a vida, incluindo a integração no mundo do trabalho. São, em última instância, a sociedade e a economia do país que sofrem.

Como pode então a questão cívica e comportamental dos menores nas escolas, complementarmente espaços de educação e não apenas de ensino, também de aprender a ser e não apenas de saber, não merecer a devida atenção, estratégia e medidas concretas?

Como pode a indisciplina obstaculizante do processo educativo e da aprendizagem continuar a ser tabu e merecer a inação dos adultos, das tutelas educativas regional e nacional e do Estado?

Como diz Daniel Oliveira no Expresso (16.4.2016), «não há offshores legais no Estado, onde os menores impõem a lei enquanto os adultos cruzam os braços.» Cruzar de braços perante a indisciplina; a falta de civismo e ética; a violência, seja ela de baixa e alta intensidade; o não saber estar em público; a não responsabilização; o não ter limites; o não saber dizer «bom dia» nem «obrigado»; a ausência de perspectiva social positiva, salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si; a indefinição do espaço humano, que nada limita e define senão a vontade oposta; a violação do direito constitucional à aprendizagem dos restantes estudantes na sala de aula…

Se António Nóvoa (Professores, imagens do futuro presente: 2009) escreveu que, na sociedade atual, na chamada sociedade do conhecimento, o «pior que podemos fazer às crianças, sobretudo às crianças dos meios mais pobres, é deixá-las sair da escola sem uma verdadeira aprendizagem», diremos que, ainda pior do que isso, é deixar os jovens sair da escola sem uma verdadeira formação humana. A competência e mérito técnicos precisam da competência e mérito humanos (literacia cívica e humana). A autodisciplina, a vontade e o trabalho individuais são fatores nucleares para o sucesso escolar e pessoal – em qualquer época, sociedade e escola.

Antes, na conferência de abertura sobre Educação e Empregabilidade, Rui Bettencourt avançou dados que provam a forte correlação entre a qualificação dos recursos humanos (nível de escolaridade da população / resultados escolares) e emprego. Estima-se que em 2020 os empregos qualificados sejam na ordem dos 85%. A Educação e as políticas educativas têm um papel determinante para o futuro e para o desenvolvimento, o que inclui a ratificação de competências ao longo da vida (trabalhadores, desempregados, inativos e os “nem nem” – não trabalham, nem estudam, nem estão em formação), além da formação inicial dos jovens. Sublinhou que fica mais caro não fazer nada do que fazer. Só com qualificação, «agente impulsionador do processo e das ideias», se chega à «inovação».

O orador açoriano terminou dizendo que «não é desejável voltar à precariedade do século XIX». Como dar segurança no emprego? Com «qualificação» e «ajustamentos» ao longo da vida. É a forma de tornar «seguros os percursos profissionais das pessoas». Recomendou uma «visão estratégica» na Educação e «determinação».

Na alocução inicial, Jorge Carvalho, secretário regional de Educação, afirmara que a promoção do emprego não depende só da Educação mas que é preciso adequar os perfis de competências às necessidades do mercado de trabalho./NS

Recorde-se:

Alunos portugueses no topo da indisciplina

Fenprof exige medidas contra a indisciplina

Queixas de indisciplina são quase diárias (JM 17.4.2016)

fotografia: Joana Sousa/ASPRESS (fonte: Diário de Notícias da Madeira)
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