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Tempo e espaço para a cultura na escola

A quarta tertúlia do SPM rumou a Leste, mais precisamente a Machico, na sua Junta de Freguesia, no dia 15 de abril de 2016, das 17h00 às 21h00. O evento foi desta vez dedicado à cultura na Educação, com moderação do professor Manuel Menezes, que lembrou o papel que diversas personalidades da localidade têm tido no desenvolvimento da cultura. O presidente da Junta e da Câmara Municipal marcaram presença (álbum fotográfico).

Três ideias em relevo

Destaque-se desde logo as «dificuldades supervenientes» de falta tempo e espaço para a cultura na escola atual, na corrida para cumprir programas, como referiu José Martins Júnior, pároco da Ribeira Seca, dinamizador e formador cultural. Falta de tempo e espaço para ser-se «criativo e incentivar a criatividade», para além da centralidade do desempenho académico dos estudantes.

Outra ideia-chave pela voz deste convidado e de Sílvia Carreira, coordenadora dos Serviços Educativos do Museu da Baleia: a importância da participação ativa das pessoas na cultura (ser criativo), na e para a sua comunidade.

Outra atitude relevante para quem trabalha ao serviço da cultura: a «projeção não é o mais importante, é a formação que se realiza», sublinhou Ricardo Caldeira, coordenador do projeto “Mercado Quinhentista” da Escola Básica e Secundária de Machico, para ser acompanhado por Martins Júnior: «estarmos ao serviço da cultura e não da publicidade.»

Experiências para a vida

Outra convidada foi Isabel Gouveia, coordenadora do Núcleo Museológico do Solar do Ribeirinho e presidente da direção da ARCHAIS, que criou um «serviço educativo» assim que assumiu o trabalho no Núcleo Museológico. Com o objetivo de fazer uma «ponte» com as escolas e os estudantes terem a oportunidade de interiorizarem aspetos da sua história, que por sua vez fazem chegar às famílias.

Esta dinamizadora cultural e pedagógica procurou ainda chamar outros públicos através das Conservas do Solar ou do Projeto de Memória, este com a participação dos mais idosos. Há ainda a simulação de escavações no atelier do museu e as visitas ao património. Salientou, por fim, a relevância da cultura no desenvolvimento social, dando nota ainda que a cultura tende a ser centralizada no Funchal.

Ricardo Caldeira começou por problematizar algumas questões como a distância psicológica dos espaços de cultura ou o facto de chegarem às escolas muitas solicitações, por ser um público fácil de aceder para compor números de visitas. Diz que há projetos interessantes nas escolas que não têm projeção, sendo o Mercado Quinhentista uma exceção.

Contudo, sublinhou que a «projeção não é o mais importante, é a formação que se realiza.» O essencial são as «experiências que ficam para a vida» e não os resultados que se tornam visíveis e a projeção social que se consegue. O Mercado Quinhentista, que este ano se realiza em 3, 4 e 5 de junho próximos, é um projeto vivo, com uma equipa multidisciplinar de docentes, e que tem conhecido um desenvolvimento muito grande a vários níveis, atingindo o número de mil figurantes.

Aprender e participar em comunidade

Não há educação sem cultura e vice-versa, começou por dizer Sílvia Carreira. São «faces da mesma moeda». Deu conta de cinco ideias-chave: 1. Nós só protegemos o que conhecemos e precisamos de proteger os recursos da nossa ilha, que inclui a cultura, um papel importante da escola; 2. Fazer com que os alunos aprendam; 3. Como aprendem? Se antes era através da memorização e depois da socialização, agora é pela participação; 4. Aprender é, pois, participar em comunidades de prática, o que obriga a saber a cultura dessas comunidades; 5. Uma participação no sentido da melhoria da própria comunidade, isto é, que ajuda a proteger o património e recursos naturais, históricos, culturais e sociais da comunidade.

Através da sua ação no Museu da Baleia procura-se contribuir para a melhoria da comunidade e para a resolução alguns problemas concretos: o lixo na praia, o desconhecimento da população local sobre a caça à baleia e a ausência de elementos de referência no Caniçal como vila baleeira. Reconhece que os processos são morosos e é «um passo de cada vez». Por outras palavras, e educação e a cultura precisam de tempo.

Ensinar cultura de verdade

José Martins Júnior, que apelidou de «missão impossível» abarcar tema tão vasto – «não se sabe onde começa a cultura e acaba a educação» –, disse a abrir algo fundamental: «estarmos ao serviço da cultura e não da publicidade.» Outra ideia central surgiu logo a seguir com o seguinte alerta: «o que é preciso é o crescimento inteligente, sustentável e inclusivo».

Denunciou que os professores «não têm espaço para ensinar cultura de verdade» quando têm de «dar programas a ferro e fogo». A pessoa não respira, não há crescimento, porque falta tempo para ser-se «criativo e incentivar a criatividade» (é isso a cultura), bem como para descobrir a centelha nos estudantes e não centrar-se só nas notas escolares. É preciso expandir-se e abrir-se à comunidade: «os estudantes não serem transplantados para terrenos alheios e produzirem cultura para a sua comunidade e, em osmose, a cultura é reproduzida.»

No debate, falou-se de cultura como liberdade e dos docentes como agentes de cultura, mas estes debatem-se com obstáculos numa escola que restringe e formata em série. Repisou-se a falta espaço e tempo para a cultura na escola, além da cultura dos livros. «Não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada», deu ainda nota Martins Júnior citando o filósofo francês Michel de  Montaigne (1533), até porque «massificar a escola é do mais idiota que pode haver.»

Micaela Santos, diretora do Centro de Formação do SPM, na abertura, contextualizara a iniciativa que o sindicato está a levar durante o presente ano letivo, por toda a ilha, salientando a informalidade do evento para a troca de ideias. No final, Francisco Oliveira, coordenador do SPM, agradeceu a presença e participação de todos, que tornaram o debate interessante e profícuo./Nélio Sousa (texto e fotografia)

Álbum fotográfico Machico 15.4.2014

Tertúlias anteriores: São Vicente (Dotar os jovens com ferramentas que permitam lidar com os desafios locais); Santana (Escolas especializadas em áreas profissionais); Zona Oeste – Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta (Cortar nos alunos inscritos com NEE é a regra)

 

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Nota:

Este Ciclo de Tertúlias pretende alcançar vários objetivos: o contacto direto com a realidade por parte do SPM; uma maior proximidade aos docentes e à comunidade educativa de cada concelho; e o debate sobre os caminhos pelos quais se fará avançar a educação no futuro, de acordo com as especificidades locais.

São escolhidos ambientes informais e descontraídos, nos quais, a par da troca de ideias, haverá também oportunidade de convívio.

Procura-se envolver as forças vivas e decisoras locais que tenham a amabilidade de se juntar aos educadores e aos professores, acolhendo os seus contributos para o setor da Educação e, consequentemente para o progresso da nossa sociedade.

A participação neste Ciclo de Tertúlias é gratuita, aberta a sócios e não sócios do SPM, mas sujeita a inscrição prévia online, sendo atribuído, posteriormente, um Certificado de Presença.

CICLO DE TERTÚLIAS na RAM:
5ª Tertúlia: “A importância da Educação nas regiões ultraperiféricas” – Porto Santo – (13 de maio) *
6ª Tertúlia: “A Educação através das Artes” – Funchal – (8 de julho) *
* a anunciar brevemente

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