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Éramos felizes e não sabíamos

Quem não tem saudades da infância, dos momentos de descoberta da vida, quando
tudo nos espantava até às entranhas e o espanto nos tirava a vontade de ir para a cama?
Quem não tem saudades do tempo da adolescência em que todo o tempo para estar com os
amigos era pouco?


Nessas alturas, a escola tinha um lugar crucial no nosso crescimento, mas não nos
roubava a vida; antes acrescentava vida à vida que já tínhamos. Hoje será assim? Acho que
não.


Este aparente saudosismo surgiu-me ao analisar a proposta de calendário escolar para
o próximo ano letivo proposto pela Secretaria Regional da Educação (SRE). Bem tem o SPM
alertado para os riscos da escolarização a tempo inteiro das vidas das crianças e adolescentes
de hoje, mas tudo continua igual: começar bem cedo e acabar bem tarde o ano letivo, para
que as criancinhas estejam o máximo de dias ocupadas e não incomodem as vidas
ocupadíssimas dos adultos. Está assim a nossa sociedade. Vamos aceitando esta realidade
como natural, mas não o é. Natural seria as crianças terem vida para além da escola. Vida para
brincar, brincar, brincar e, até, para não fazerem nada, para se debruçarem sobre a janela da
vida e olharem, com o olhar perdido, o infinito.
Não será assim, se o calendário proposto vier a ser promulgado, como é expectável


que venha a acontecer, porque a sociedade exige e a SRE há muito que sobrepôs as exigências
dos pais aos direitos das crianças e dos adolescentes. No fundo, esta é a opção que mantém as
águas calmas e evita tempestades incómodas para os governantes. As tempestades são quase
sempre desagradáveis, mas, por vezes, são a melhor forma de limpar o horizonte e de trazer a
bonança.


Obviamente que esta posição enfurecerá os que se sentem confortáveis com o modelo
adotado, e que a justificarão com interesses corporativistas, recorrendo aos habituais
argumentos de que “os professores não querem fazer nenhum”, “querem é ter três meses de
férias”, “não fazem nada e ganham bem”. Pois, argumentos tão sólidos quanto a melhor das
falácias. Se tivessem razão, não faltariam professores e educadores por todo o país e os bancos
das escolas estariam cheios de candidatos a esse emprego de sonho, mas, como sabemos, não
é essa a realidade.


Por isso, é tempo de analisarmos o problema friamente e tirarmos as conclusões
apropriadas, não com base em conveniências sociais transitórias, mas em dados científicos,
que não deixam quaisquer dúvidas quanto à importância da brincadeira nas aprendizagens
para toda a vida.

É, por isso, fundamental que sejamos capazes de oferecer às novas gerações um
equilíbrio entre as aprendizagens formal e informal, como o que tivemos a sorte de ter quando
éramos crianças felizes e nem dávamos por isso.
Não é saudosismo; é pragmatismo educativo a pensar no que é melhor para a
formação das nossas crianças e adolescentes.

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